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Emergência Médica durante um voo comercial – O que o médico deve fazer?

[quote font=”georgia” font_style=”italic” color=”#000000″ bcolor=”#bc0c00″ arrow=”yes”]”Tem algum médico à bordo? Essa é pior pergunta que eu quero ouvir durante uma viagem aérea de longa duração”  –  Médico inglês[/quote]

Emergência médica durante o voo
Emergências médicas durante um voo comercial são incidente frequentes e o médico deve estar ciente de que poderá ser chamado em ele estiver no avião durante o incidente.

Todos os anos cerca de 2 biliões de pessoas realizam viagens aéreas em todo o mundo. Incidentes médicos durante uma viagem aérea comercial são fenômenos comuns ainda mal compreendidos e estudados. Apesar da expansão do transporte aéreo comercial, nas últimas décadas, não existem actualmente diretrizes formais para o manuseio de passageiros com emergência médica durante os voos comerciais. A incidência destes casos é difícil de estimar, dada a escassez de dados disponíveis. Embora as companhias aéreas comerciais, muitas vezes recolham informações sobre eventos médicos durante o voo, elas não o fazem de forma padronizada, por isso é difícil comparar os dados entre as várias regiões. Um estudo de um centro de comunicações baseado em terra que presta serviço de consulta médica para companhias aéreas estima que emergências médicas ocorrem em 1 de cada 604 vôos, apesar de ser uma estimativa que pode estar subestimada.

Os médicos que viajam podem ser solicitados a prestar assistência a um passageiro com  emergência médica durante um voo comercial. O espaço restrito da cabine de uma aeronave e limitados recursos disponíveis tornam a resposta à tais eventos susceptíveis de decisões clínicas desafiadoras. Portanto, os profissionais de saúde devem compreender que, em vôos comerciais, emergências médicas ocorrem comumente, a importância o prestador de socorro nestas situações e as responsabilidades ética e legais a que se pode incorrer quando se presta tal assistência.

Algumas coisas que precisa saber antes de prestar socorro

Recursos médicos a bordo

Equipamentos estocados em “Kits Médicos de Emergência” não é obrigatório por qualquer órgão de aviação internacional, embora a International Air Transport Association (IATA), a Associação Médica Aeroespacial (AsMA), e a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) tenham acordado recomendações padronizadas. Algumas entidades nacionais têm regulamentos específicos para companhias aéreas sobre items que devem constar neste kit.

A Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos da América, determina que as companhias aéreas sediadas naquele país carreguem kits de primeiros socorros que são abastecidos com suprimentos básicos. Outras exigência é de que todos aviões comerciais de companhias americanas pesando 3,4 toneladas ou mais e servidos por pelo menos uma comissária de bordo devem portar um desfibrilador automático externo (DAE) e um kit médico emergência reforçado. O uso de DAE durante vôos comerciais foi validado como seguro e efectivo. A FAA também exige que os comissários de bordo recebam treinamento a cada dois anos em ressuscitação cardiopulmonar (CPR) e o uso de DAE.

De acordo com os regulamentos da FAA, na ausência do kit médico ou DAE o avião não pode decolar. Os comissários de bordo só podem utilizar os equipamentos e medicamentos sob a direcção de um profissional médico licenciado. Para eventos médicos menores, comissários de bordo podem usar um kit de “primeiros socorros”, que é abastecido separadamente. Se necessário, os médicos podem solicitar que comissários de bordo façam um anúncio pedindo equipamento adicional (por exemplo, um glucómetro) ou medicamentos à outros passageiros.

Tabela 1 – Kit de Emergência Médica

Medicamentos

Adrenalina 1:1,000

Adrenalina 1:10,000

Antihistamínico, inj.

Dextrose 50%, inj. 50 ml (ou equivalente)

Nitroglicerina (comp. ou spray)

Analgésico potente, inj. ou oral

Anticonvulsivo sedativo, inj.

Antiemético, inj.

Broncodilatador, inal.

Atropina, inj.

Adrenocorticóide, inj.

Diurético, inj.

Medicamento para sagramento pós-parto;

Solução salina isotónica;

Acido acetilssalicílico, oral;

Betabloqueador oral;

Equipamentos

Estetoscópio;

Esfigmomanómetro;

Dispositivo para vias aéreas, orofaringéo

Dispositivo de ressuscitação auto-expansível (AMBU) com máscara pediátrica e adulto (pequeno e grande)

Máscara para RCP (pediátrico e adulto)

Seringas

Agulhas

Cateteres intravenosos

Compressas antissépticas

Luvas;

Caixa para descarte;

Cateter urinário

Torniquete venoso

Gaze esponjoso

Fita adesiva

Luvas cirúrgicas

Lanternas e pilhas

Termômetro (sem mercúrio)

Manual de instruções básicas para uso do material no kit.

Aspectos médico-legais

Como qualquer outro atendimento médico, ao prestar socorro numa situação de emergência durante o voo, o médico estabelece uma relação médico-paciente passíveis de obrigações e responsabilização. Esta relação poderá ser regulamentada pelas leis do país em que o avião está registrado, do país em que ocorreu o incidente ou daquele em o paciente é nacional.

Muitos países da Europa e a Austrália impõem aos médico uma obrigação legal para prestar atendimento em uma emergência médica durante um vôo. Por outro lado, as leis federais dos EUA não impõem tal obrigatoriedade. De qualquer forma, pode-se argumentar que o profissional de saúde (médico) tem obrigação ética de prestar assistência médica em caso de emergência.

Um número crescente de companhias aéreas usam os serviços de centros remotos de resposta a emergências. A “MedAire“, “The First Call” e a “StatMD”, por exemplo, oferecem consultas 24 horas por dia através de centros de atendimento composta por médicos. Se um passageiro com formação médica se voluntariar a prestar assistência deve coordenar com a tripulação de cabina e um médico do centro de resposta. Se um call center médico  não está disponível, o médico voluntário deve trabalhar com a tripulação de cabina e pode sugerir opções de tratamento ou de desvio do voo.

Se a condição do paciente é instável e requer atenção médica formal de imediato, o médico pode recomendar desvio do voo para o aeroporto mais próximo capaz de pouso da aeronave e com o acesso a serviços médicos adequados. No entanto, a decisão de desvio é de inteira responsabilidade do piloto comandante.

O médico voluntário deve documentar a sua avaliação e intervenções administradas utilizando um Formulário de Incidente Médico padrão companhia aérea, se estiver disponível, ou em uma folha de papel em branco se este não está disponível. O médico voluntário pode – e deve – solicitar uma cópia do documento médico ou formulário para seus registros pessoais.

Se um paciente requer um acompanhamento e terapia em curso, o voluntário pode precisar para ficar ao seu lado durante o voo. Uma vez que o avião aterre, o voluntário pode passar o cuidado à equipe médica em terra que pode transferir o paciente para um hospital adequado.

Abordagem ao paciente e orientações

Um artigo de 2002 publicado no New England Journal of Medicine por Gendreau et al e outro artigo de 2015 publicado na mesma revista por Jose V. Nable et al. oferecem recomendações para médicos voluntários ao atenderem um incidente médico durante o voo. Estas orientações estão apresentadas a seguir.

Tabela 2 – Sugestões gerais para manuseio de emergências médicas durante o voo

Médicos que prestam assistência médica durante o voo devem seguir as seguintes orientações:

Identifique-se incluindo seu grau de treinamento;

Peça autorização ao paciente para tratar (se estiver lúcido);

Use um tradutor, se necessário;

Tratar no assento sempre que possível;

Não tente fazer nada além de sua experiência ou competência;

Solicitar acesso ao kit de emergência médica e ao desfibrilador;

Obtenha a história clínica e faça um exame físico objectivo incluindo os sinais vitais;

Comunique e coordene com tripulação de voo e recursos em terra;

Continue com a assistência até estabilização do quadro ou até passagem para outro profissional ou equipe médica;

Documente seus achados clínicos e tratamentos administrados;

Para manuseio de situações de emergência específicas e mais frequentes clique aqui.

Bibliografia consultada

Gendreau MA, DeJohn C. Responding to medical events during commercial airline flights.  N Engl J Med. 2002 Apr 4; 346(14):1067-73.

 

Jose V. Nable, Christina L. Tupe, Bruce D. Gehle, William J. Brady, In-Flight Medical Emergencies during Commercial TravelN Engl J Med 2015; 373:939-945.

Sand M, Gambichler T, Sand D, Thrandorf C, Altmeyer P, Bechara FG. Emergency medical kits on board commercial aircraft: a comparative study. Travel Med Infect Dis. 2010 Nov;8(6):388-94.

Valani R, Cornacchia M, Kube D. Flight diversions due to onboard medical emergencies on an international commercial airline. Aviat Space Environ Med. 2010 Nov;81(11):1037-40.

Hung KC, Chan EY, Cocks RA, et al. Predictors of Flight Diversions and Deaths for In-flight Medical Emergencies in Commercial Aviation. Arch Intern Med. 2010;170(15):1401–1402.

Szmajer M, Rodriguez P, Sauval P, et al. Medical assistance during commercial airline flights: analysis of 11 years experience of the Paris Emergency Medical Service (SAMU) between 1989 and 1999. Resuscitation. 2001;50(2):147–151.

Especialidades: Emergências Médicas , Medicina Legal Palavras-chave:

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